Entre o discurso e a praxis

https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/governo-federal-autoriza-ensino-distancia-na-educacao-basica-21397821

A leitura do capítulo X do livro Cibercultura, do Pierre Levy, foi muito oportuna para os acontecimentos da semana e intensificam ainda mais o debate sobre a concretização das novas tecnologias da informação e comunicação dentro das escolas. Nesta mesma semana tivemos a portaria do Ministério da Educação autorizando o ensino a distância na educação básica. Menos de 24h após a sua publicação, devido às críticas que recebeu, essa mesma portaria foi revogada. 

Diante da leitura do Levy, e seu pertinente elogio das tecnologias da informação e comunicação, indo para além disto, quando descreve os ciberespaços e, em especial, a inteligência coletiva e sua sinergia de competências,  não restam dúvidas de que não estamos apenas diante de novas tecnologias, mas de novas e diversas formas de comunicação e produção de conhecimento.

Todavia, quando adentramos ao espaço da educação, sempre que se fala desses novos modelos de produção de conhecimento, há dúvidas e preocupações sobre a viabilidade desses na prática. Desde os anos 90 quando temos o boom do ensino superior a distância no Brasil, esse fenômeno foi relacionado a expansão da privatização do setor e consequente precarização do ensino superior no Brasil. Entretanto, a história desmente em muito esse preconceito arraigado, mostrando que o ensino a distância desde os tempos do rádio foi fundamental para atingir regiões remotas do Brasil e interiorizar a educação superior. Como vemos, mesmo a educação a distância que é anterior ao ciberespaço e a Nova Era digital ainda sofrem uma resistência marcante.

Essa barreira que impede o ciberespaço de adentrar as portas da sala de aula nos faz questionar a viabilidade dessas teorias e se um dia elas poderão se concretizar. São muitas as explicações, e o fato da educação regular e presencial, em especial na rede pública encontrar-se tão sucateada pelo poder público, sem nenhuma estrutura e com total falta de verbas, como acreditar que essa modalidade a distância e outras tecnologias  funcionarão?   

Santaella já havia alertado para o risco de uma euforia em excesso, acreditando no caráter salvacionista da tecnologia, que resolveria todos os problemas humanos, mas também alertou para uma desforia, que seria um completo pessimismo em relação as mesmas, numa espécie de perda da ingenuidade e naturalidade das relações humanas. Sobre a matéria em destaque é interessante a resposta da professora sobre a autorização do ensino EAD para a rede básica e que responde muito das indagações feitas aqui:

- "O risco é que a gente não conhece o caminho"

Sem dúvidas, para evitar os extremos apresentados pela Santaella, o melhor é encontrar o equilíbrio entre o pessimismo e o otimismo e ir não só descobrindo o novo caminho, mas uma nova forma de caminhar que o mundo do Ciberespaço e Cibercultura podem demandar. 

Sendo assim, não podemos esperar que essa transformação se dará da noite para o dia. Ocorrerá e já vem ocorrendo de forma gradual e precisamos estar atentos e preparados para isso. 

A crítica ao estado da rede pública de ensino deve ser uma constante luta e objeto de crítica dos professores, todavia, não podemos nos deixar engessar por isso, e tentar aproveitar as oportunidades que esse novo universo tem a nos oferecer.



Comentários

  1. Olá André. Quando falamos em Educação no Brasil, sempre tenho a sensação que recuamos tres passos a cada um que avançamos. Fico pensando a necessidade urgente em se implementar políticas efetivas de qualificação de professores e acesso equânime às tecnologias. A EAD é uma modalidade excelente de ensino aprendizagem, mas não deve estar a serviço de governos incompetentes que usam as novas tecnologias como mote de progresso com o intuito de escamotear as suas deficiencias político administrativas.

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    1. Esse é o grande embate que temos que enfrentar na nossa caminhada na educação. Sempre ter um pé atrás com governos que entram e saem, sempre com políticas mirabolantes que quase nunca dão resultado e que só tem fins eleitoreiros.

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  2. Oi André!

    Al principio, cuando leí la noticia en el portal de "O globo", me emocionó mucho, por que esa es una modalidad de enseñanza en la que yo, particularmente, encuentro un potencial increíble y me parece muy triste que la iniciativa haya sido descartada tan rápidamente.

    Estoy de acuerdo contigo cuando expresas que necesario no solo adaptarse a novos caminos, sino que tenemos que descubrir también la manera de recorrerlos.

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  3. Com certeza Roger, não entendo como um Ministério tenha tomado uma decisão tão importante e sem convicção, a ponto de recuar tão rápido assim.

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  4. Muito bacana as reflexões que todos fizeram aqui... conseguiram expressar as potencialidades, as ambiguidades, os interesses que atravessam a EAD no Brasil. Parabéns a todos!

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