A Era Pós-midiática e a Pós-verdade
A leitura do capítulo "Substratos da cibercultura”,
capítulo 4, do livro de Lucia Santaella "Culturas e Artes do Pós-Humano:
da cultura das mídias à cibercultura" (2003), apesar de escrito há mais de uma década descreve com muita sutileza o desenvolvimento daquilo que se tem compreendido como Cibercultura e a sua presença nas nossas vidas. A correlação com os fatos mais recentes já não nos deixa dúvidas de que estamos vivendo todo o contexto descrito pela Santaella.
Desde o princípio do seu texto Santaella já deixa claro que a Era Digital desconstruiu todas as hierarquias que poderiam existir entre artes e culturas, desde a apropriação do conceito de Herder, de relativizar e entender este conceito com o máximo pluralismo, no sentido de culturas, dando a todos o seu distinto valor. A hierarquia entre arte erudita, arte de massa ou popular já não fazem mais sentido, pois na era digital quase tudo está à mão daqueles que tem acesso aos Ciberespaços.
A relativização do que é cultura, é apenas um símbolo da passagem do mundo midiático para o pós-midiático, no qual a narrativa oficial, ou pelo menos oficiosa, era única e era ditada pelas elites através das antigas mídias, em especial, o rádio, a televisão e a mídia impressa. Evidentemente, desde sempre tínhamos visões dissidentes e divergentes da narrativa que era produzida por aqueles que dominavam os meios de produção, Contudo, não há dúvidas que desde o aprimoramento da Imprensa, que tanto contribuiu para o advento do Antigo Regime até o advento da televisão, a coesão e imposição de uma narrativa "oficial" se tornaram muito mais fácil.
A Era Pós-Midiática com suas múltiplas possibilidades, do hiperlink até os ciberespaços e suas variantes de hiper conectividade, não deixam mais o cidadão como um mero receptor ou consumidor, ele passa também a ser um produtor e com plena autonomia de interação. Dessas possibilidades emergiram novas narrativas concorrentes ao status quo que se não se tornaram ainda viáveis, pelo menos apontam caminhos de emancipação das classes populares. O grande debate que emerge num contexto onde o pensamento do pós-modernismo cada vez mais se desenvolve é saber dentro dessa profusão de narrativas onde está a verdade ou até mesmo se ela existe. Evidentemente, com o desgaste das narrativas oficiosas e o descrédito dos grandes oligopólios midiáticos será cada vez mais difícil elucidar de onde vem a próxima " fake news".
Como bem disse Santaella, não nos cabe sermos eufóricos demais com as novas tecnologias, mas também não podemos cair no pessimismo extremo. O desenvolvimento da Cibercultura não pode ser compreendido fora do contexto capitalista e o montante de capitais investidos para o seu desenvolvimento, todavia, como foi dito acima cabe àqueles que desejam uma emancipação das camadas populares das amarras capitalistas, procurar as brechas e caminhos que a Era Pós-midiática oferece.

Muito interessante André! De fato o conceito de verdade em nossa era toma uma dimensão completamente "escorregadia", eu diria. As narrativas inferidas pela grande mídia, seja ela televisiva ou digital, quase sempre estão carregas de informações intencionais que objetivam construir ou desconstruir ideias.
ResponderExcluirInteressante quando você diz que resta "procurar as brechas e caminhos que a era pós-midiática oferece". Como não há possibilidade de retroceder, há que se adaptar ao novo para alcançar o que se almeja.
ResponderExcluirOlá André, cabe às próprias camadas populares procurar as brechas e produzir suas narrativas. O movimento deve ser de baixo para cima.
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